Módulo Face Oculto

Profa. Débora Sousa França Affonso¹
Profa. Samanta Malta²

Muito se tem falado a respeito de bilinguismo e educação bilíngue nos últimos anos. O crescimento exponente de escolas e programas bilíngues trouxeram muitas dúvidas, especulações e generalizações a respeito do tema. Sendo assim, discutimos abaixo seis grandes mitos e/ou expectativas que perpassam as discussões a respeito de educação bilíngue no Brasil. Confira!

Mito 1 - A escola para ser bilíngue deve oferecer mais aulas de inglês ou outra língua adicional.
Como não temos uma legislação em âmbito nacional que determine o que é ou não uma escola bilíngue, acreditamos que apenas oferecer mais aulas de uma outra língua não caracterize a escola como bilíngue. Precisamos levar em consideração qual concepção de linguagem está presente nas práticas educativas da escola e como a língua está inserida na formação do sujeito, além de levar em consideração a formação crítica e sociocultural do aluno e como a língua adicional pode auxiliar na construção e circulação de saberes.

Mito 2 - Uma criança que estuda em escola bilíngue confunde as duas línguas e parece que não aprende nenhuma direito.
A criança que está em um contexto social em que são utilizadas duas ou mais línguas, necessita a todo tempo, fazer escolhas de qual sistema utilizar em cada momento. Em vista disto, é normal que em algum momento ela “misture” as duas línguas em sua fala. Acreditamos que a língua não está separada em dois compartimentos diferente no cérebro e sim que a aprendizagem das línguas se dá, principalmente na infância, de maneira a construir sinapses no cérebro onde um mesmo conceito ou objeto tem duas maneiras diferentes de serem nomeadas.

Mito 3 - Contaram para mim, que uma criança que estuda em escola bilíngue demora mais para falar e escrever pois tem duas línguas para se preocupar.
Assim como no mito anterior, o fato da criança ter que trabalhar com dois sistemas de representação ao mesmo tempo, gera um trabalho intenso no cérebro, que o fortalece. O que temos muitas vezes, são expectativas exageradas dos adultos com relação a produção oral e escrita das crianças. Considerando que cada criança tem seu tempo para dizer as primeiras palavras e que esse tempo pode ter uma variação maior que 2 anos, como acreditar que uma criança em contextos de bilinguismo não possa também ter essas variações? A prática nos mostra, que em linhas gerais, crianças expostas por muito tempo a duas ou mais línguas, passam pelo processo de apropriação do sistema de leitura e escrita de maneira mais rápida.

Mito 4 - Vou tirar meus filhos da escola bilíngue para cursar o Ensino Médio em escola regular para poder prepará-los para o Vestibular.
Independentemente se a escola é bilíngue ou não, acreditamos que a preparação deva ser de um aluno capaz de organizar seus conhecimentos de maneira a aplicar em diversas situações, como o Vestibular, processo seletivo de universidades fora do país ou mercado de trabalho.

Mito 5 - Sou professor(a) e não sou fluente em outra língua. Vou perder o meu emprego!
A educação bilíngue não é somente para o professor que dá aulas em outra língua.
Compreendemos que toda a comunidade escolar tem responsabilidade pela construção de uma educação bilíngue em sua escola. Além do mais, a lei garante que o aluno deva ter sua educação básica ministrada na língua oficial do Brasil que é o português.

Mito 6 - Mas na BNCC não tem nada escrito sobre educação bilíngue!
Realmente os documentos oficiais não fazem nenhuma menção a educação bilíngue.
Apenas dois estados no Brasil, Rio de Janeiro e Santa Catarina possuem normas para a oferta de escola bilíngue e escola internacional em seus estados. É de responsabilidade das escolas bilíngues adequarem seu currículo e carga horária as exigências normativas de seu estado. Muitas das escolas bilíngues funcionam em regime de período integral para que possam cumprir a carga horária curricular exigida em língua portuguesa e a carga horária curricular implementada na língua adicional.


1 - Professora, consultora educacional licenciada e mestre em Música pela USP, também formada em Pedagogia. Experiência como professora polivalente e de música em escolas bilíngues.

2 - Professora, pedagoga e formadora educacional licenciada em Letras Inglês/Português e mestre em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC-SP. Membro do Grupo de Estudos em Educação Bilíngue (GEEB) na PUC-SP.